{"id":2065,"date":"2019-06-23T13:01:37","date_gmt":"2019-06-23T13:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/?p=2065"},"modified":"2019-06-23T16:49:38","modified_gmt":"2019-06-23T16:49:38","slug":"a-narrativa-e-a-paisagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/2019\/06\/23\/a-narrativa-e-a-paisagem\/","title":{"rendered":"A narrativa e a Paisagem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Rio de Janeiro, 22 de junho de 2019. Segundo dia de um inverno tropical. Um s\u00e1bado de temperatura agrad\u00e1vel, sol morno, um c\u00e9u de um azul intenso na Tijuca. Um azul diferente daquele emba\u00e7ado, da atmosfera quente do ver\u00e3o. Algumas nuvens se aglomeravam, cinzentas, ao fundo da paisagem, por tr\u00e1s dos pr\u00e9dios na dire\u00e7\u00e3o da Usina, fazendo crer que na pracinha do Alto da Boa Vista, neste instante, quem l\u00e1 estivesse. n\u00e3o via a pintura que eu via.  As montanhas que cercam o bairro, desde o Sumar\u00e9 at\u00e9 a Floresta da Tijuca traziam um vento fresco, mas suave, junto com a not\u00edcia de que mais tarde a temperatura iria baixar. Era mais do que uma boa raz\u00e3o para sair logo \u00e0 rua, pegar os primeiros raios de sol e rosear as faces, em busca de um ato saud\u00e1vel e confortante. N\u00e3o ia sozinha, trazia comigo o livro j\u00e1 iniciado h\u00e1 poucos dias, nada mais nada menos e, com licen\u00e7a da prosa, &#8220;Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cuba&#8221; do excelent\u00edssimo Machado de Assis. Tinha em mente procurar um lugar na pra\u00e7a S\u00e3ens Pena em que pud\u00e9ssemos nos sentar e, prazerosamente, \u00edntimos e confidentes, conversar\u00edamos sem interrup\u00e7\u00f5es, agraciados pelos ben\u00e9ficos raios de sol que j\u00e1 havia dito acima, foi o motivo que me fez sair de casa \u00e0quela hora da manh\u00e3. Br\u00e1s acabara de conhecer Marcela e eu queria saber mais do que ele tinha a me dizer sobre ela. Enquanto caminhava para o meu destino, imaginava que n\u00e3o seria dif\u00edcil encontrar o lugar que queria, j\u00e1 que grande \u00e9 a \u00e1rea que a pra\u00e7a tem em torno do seu lago com chafariz que, diga-se de passagem, raramente tem \u00e1gua. Pensar\u00e3o que \u00e9 por falta de verba, afinal \u00e9 gratuito o espet\u00e1culo, mas para mim a raz\u00e3o \u00e9 bem outra. Deixarei a curiosidade, caso a tenha despertado e, mais ainda, a minha opini\u00e3o \u00e0 respeito nesse ve\u00edculo onde agora escrevo, mas que raramente algu\u00e9m visita, mesmo que saiba ser quase hil\u00e1ria a pretens\u00e3o. Portanto, se julgar pertinente, mais adiante, no final deste par\u00e1grafo que j\u00e1 est\u00e1 ficando enorme, darei minha opini\u00e3o acerca da falta de \u00e1gua do lago da Pra\u00e7a S\u00e3ens Pena. Bem no meio dela chegamos. Vi que o sol n\u00e3o era realmente o problema, apesar das muitas \u00e1rvores que criavam trechos sombrios aqui e ali, mas dif\u00edcil era achar onde sentar. Os bancos eram poucos e estavam todos ocupados. Nuns, alguns idosos conversavam, liam o jornal ou simplesmente permaneciam inertes ali sentados, enquanto nos outros, viam-se grandes embrulhos que lhes tomavam toda a extens\u00e3o do assento e, triste realidade desse pa\u00eds, eram de pessoas. Todas enroladas em panos e cobertores informando que a noite havia sido fria e a tentativa agora era fazer o corpo voltar \u00e0 temperatura normal, o que parece f\u00e1cil, mas n\u00e3o o \u00e9 para um morador de rua. \u00a0Procurei ent\u00e3o, em volta, um lugar para tomar um cafezinho, porque \u00e9 o que sempre procuro antes de qualquer coisa, h\u00e1bito trazido da Europa, ou melhor, de Portugal (aqui um \u00e0 parte, se faz favor, pois n\u00e3o consigo tirar o epis\u00f3dio da mem\u00f3ria, por causa de um amigo que assim me apresentou o pa\u00eds quando l\u00e1 aportei, claro que isso foi antes da UE). A x\u00edcara a mim entregue no balc\u00e3o, pequena, branca, e escaldada num grau que o mendigo da pra\u00e7a agradeceria chegar, me queimou levemente a boca, o que poderia me trazer um azedume e atrapalhar o dia de frescor, mas olhei para a esplanada do bar e voltei a me sentir atra\u00edda pelo bem-estar que ainda desejava preservar. As mesas de madeira avermelhadas estavam sendo colocadas pelo gar\u00e7om por debaixo das copas de duas grandes e centen\u00e1rias \u00e1rvores que deixavam entrever alguns raios de sol penetrantes dando uma linda ilumina\u00e7\u00e3o \u00e0quele trecho favorecido da rua. Este bar fica na esquina da 45, uma galeria simp\u00e1tica, onde era o antigo cinema Olinda, demolido em 1972 , eu j\u00e1 era nascida. Um pecado. Al\u00e9m desse, todos os outros cinemas em torno da pra\u00e7a desapareceram praticamente na mesma \u00e9poca, um ap\u00f3s outro, outro motivo que me faria estender o par\u00e1grafo, mas n\u00e3o o farei. Fato \u00e9 que hoje, para encurtar, os cinemas deram lugar \u00e0 lojas e \u00e0 igreja que s\u00f3 n\u00e3o chegou \u00e0 Marte, pois se diz universal, porque o dinheiro n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 a moeda de troca. Carreguei a x\u00edcara de caf\u00e9 para uma das mesas e deixei a queimadura para l\u00e1. Pedi desculpas ao Br\u00e1s e ao Assis, mas conversas assim, t\u00e3o cheias de conte\u00fado, como as que temos, n\u00e3o consigo t\u00ea-las sentada numa mesa em posi\u00e7\u00e3o de estudante ou como se estivesse a trabalhar. Tomei o caf\u00e9 calmamente e sa\u00ed. Voltei \u00e0 pra\u00e7a. Desisti dos bancos. Olhei as muretas em volta dos canteiros e vi algumas pessoas sentadas nelas com a mesma inten\u00e7\u00e3o da minha, de se rosear. Procurei um espa\u00e7o entre elas, e ali fiquei, bem posicionada. Assim que sento, olho em torno e, lembrei que esqueci de uma importante atra\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a. N\u00e3o para mim, que ainda prefiro buscar meu lugar ao sol, mas \u00e9 a \u201cFeirinha da Pra\u00e7a S\u00e3ens Pena\u201d. S\u00e3o barracas que vendem v\u00e1rios tipos de artesanatos, desde enfeites, roupas e jo\u00ednhas, se assim as posso chamar, pois n\u00e3o gosto do termo bijuteria (que diferen\u00e7a faz se todas brilham?). Passado o radar a pente fino na paisagem, volto a mim e ao meu posicionamento. Tr\u00eas senhoras conversavam ao meu lado. Duas se foram, uma ficou. Depois foi embora, deu lugar \u00e0 um senhor idoso que trazia consigo o jornal, lia-o \u00e0 sombra que fazia seu corpo de contra o sol e o bon\u00e9 que trazia. Tranquilo estava ele, como eu tamb\u00e9m estava e por isso voltei \u00e0 Marcela, exploradora, sedutora e interesseira, jamais se deixou enganar por um falso brilhante, como eu com as bijuterias. Fez do Br\u00e1s seu quinh\u00e3o que gastou tudo o que n\u00e3o podia at\u00e9 o pai descobrir e o mandar estudar na Europa, ou melhor, Portugal (valha-me Deus, n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a. Devo confessar que o motivo \u00e9 que era um lisboeta pern\u00f3stico que se julgava certo em tudo, por isso talvez n\u00e3o lhe perdoe o deslize, que \u00e9 bobo por sinal). Assim Br\u00e1s estudou e se formou em Coimbra e depois, voltou para o Rio de Janeiro. E eu tamb\u00e9m. Mais precisamente para a Pra\u00e7a S\u00e3ens Pena. Voltei porque uma senhora saltou do \u00f4nibus que estava parado no ponto ao lado da mureta em que eu estava e come\u00e7ou uma discuss\u00e3o com o motorista sobre dinheiro, passagem, algo assim pois, n\u00e3o consegui entender bem, mas do quiosque dos velhotes que jogam cartas, no meio da pra\u00e7a, um homem malvestido, parece que entendeu e dizia qualquer coisa na dire\u00e7\u00e3o dos dois que discutiam, que tamb\u00e9m n\u00e3o entendi. Percebi apenas que no meio de tanta gente, entre pobres, silenciosos, brancos e mendigos havia um qu\u00ea de conviv\u00eancia poss\u00edvel, de compreens\u00e3o e respeito ao espa\u00e7o de cada um. Ou talvez era eu que, segurando um Machado na m\u00e3o, via tudo em uma narrativa po\u00e9tica, numa linguagem rom\u00e2ntica, n\u00e3o sei. Mas o que vale \u00e9 que o cen\u00e1rio pareceu bem mais interessante do que poderia ser sem esse olhar e foi uma excelente manh\u00e3 de um s\u00e1bado de c\u00e9u azul intenso que resultou nessa vontade feliz de a reportar. S\u00f3 n\u00e3o fiquei roseada. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"290\" height=\"463\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/bras-cubas.jpg?resize=290%2C463&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2067\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/bras-cubas.jpg?w=290&amp;ssl=1 290w, https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/bras-cubas.jpg?resize=188%2C300&amp;ssl=1 188w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 22 de junho de 2019. Segundo dia de um inverno tropical. Um s\u00e1bado de temperatura agrad\u00e1vel, sol morno, um c\u00e9u de um azul intenso na Tijuca. 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