{"id":2150,"date":"2019-12-06T01:24:32","date_gmt":"2019-12-06T01:24:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/?p=2150"},"modified":"2019-12-06T11:41:17","modified_gmt":"2019-12-06T11:41:17","slug":"diga-me-por-onde-andas-saberei-o-que-falas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/2019\/12\/06\/diga-me-por-onde-andas-saberei-o-que-falas\/","title":{"rendered":"Diga-me Por Onde andas&#8230; E Falarei Como falas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\"> Beatriz acabara de sair do luxuoso pr\u00e9dio em Santo Cristo e que, valha-se o nome, erguia-se ali, suntuoso e solit\u00e1rio, em meio aos de escombros de lojas e casas naquele bairro abandonado. Discrep\u00e2ncias de um pa\u00eds &#8220;desconcertado&#8221; que aqui ficaria melhor escrever com&#8221;s&#8221;.  Decididamente, a escolha da empresa que para ali mudara-se h\u00e1 pouco tempo e onde Beatriz dava esporadicamente aulas de idiomas, foi uma p\u00e9ssima provid\u00eancia. E, al\u00e9m disso, era justamente o nome da esta\u00e7\u00e3o para a qual ela se encaminhava agora, a passos largos, pois as ruas, mesmo \u00e0quela hora da manh\u00e3, estavam desertas. <\/p>\n\n\n\n<p>Decidiu ent\u00e3o n\u00e3o arriscar e pegar um atalho, ali\u00e1s, dizendo a bem da verdade, n\u00e3o foi ela que decidiu, foi mesmo sugest\u00e3o da recepcionista da empresa. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8221; &#8211; Vai por dentro da Cidade do Samba, porque o carrinho que a gente pega para a Parada dos Navios n\u00e3o funciona essa hora&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz j\u00e1 estava entrando no p\u00e1tio interno entre os barrac\u00f5es das escolas de samba quando percebeu que conseguia ouvir seus pr\u00f3prios passos t\u00e3o grande era o sil\u00eancio que se fazia, tanto quanto a dist\u00e2ncia que deveria ainda percorrer at\u00e9 a sa\u00edda. De carnaval n\u00e3o se ouvia nada, s\u00f3 restara a fantasia, mas perigo tamb\u00e9m n\u00e3o havia. S\u00f3 um dinossauro encarava dois \u00edndios agachados em posi\u00e7\u00e3o de ataque enquanto o coringa da Unidos da Tijuca gargalhava do outro lado. Sem d\u00favida Beatriz  tomara a melhor provid\u00eancia e poucos metros depois que saiu da &#8220;Cidade&#8221; chegou \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. Sentou-se para esperar o trem (n\u00e3o soar\u00e1 t\u00e3o charmoso, mas o nome \u00e9 VLT, n\u00e3o sei se lhe poderia chamar de trem) e, assim como acontece com o pr\u00e9dio,  Beatriz, considerava grotesca a exibi\u00e7\u00e3o de sua modernidade desconcertante naquele lugar. <\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto esperava viu no alto, mesmo \u00e0 sua frente, um jardim com uma casa ao fundo.  <\/p>\n\n\n\n<p> &#8211; \u00c9 o Cemit\u00e9rio dos Ingleses. <\/p>\n\n\n\n<p>Respondeu a senhora ao lado. Beatriz fitou encantada pois o reconhecia, n\u00e3o de vista, mas de letras que lhe mencionavam os livros que lia.  Come\u00e7ou ent\u00e3o a vir na mem\u00f3ria os nomes de todos aqueles bairros \u00e0 mesma velocidade que fazia o VLT e as p\u00e1ginas que as p\u00e1ginas percorria&#8230; Provid\u00eancia, Gamboa, Harmonia&#8230; olhou os sobrados e agora o cen\u00e1rio a fez encontrar personagens, homens com bengalas, chap\u00e9us e mulheres arrastando suas longas saias pelas cal\u00e7adas. Estariam aquelas constru\u00e7\u00f5es ainda ali at\u00e9 virar p\u00f3 sozinhas protegidas por seus fantasmas?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 chegado o momento de parar, pois me preocupa outra coisa. A possibilidade do leitor se encontrar perdido no texto, pois a placa dizia &#8220;Diga-me por onde andas e falarei como falas&#8221;. Admito que parece estranho, mas n\u00e3o h\u00e1 nada de errado, pois o lugar \u00e9 esse mesmo, est\u00e1 tudo aqui, n\u00e3o houve desvio.  \u00c9 que este trajeto, digamos, o principal, n\u00e3o vinha nos p\u00e9s, mas na mente de Beatriz que enquanto caminhava entre as alegorias por ele passeava e refletia, com breves interrup\u00e7\u00f5es \u00e9 verdade, como as do cemit\u00e9rio por exemplo, mas l\u00e1 estava ela concentrada em pensamentos na dire\u00e7\u00e3o da placa.   <\/p>\n\n\n\n<p>  &#8220;- Alan, voc\u00ea s\u00f3 vai conseguir falar o portugu\u00eas compreensivelmente se separar as s\u00edlabas. N\u00e3o tem outro jeito. \u00c9 o ponto chave. \u00c9 como uma escala. Aqui n\u00e3o h\u00e1 &#8220;rolls&#8221; nem &#8220;water&#8221; em que o &#8220;t&#8221; vira &#8220;r&#8221; e a l\u00edngua enrola. Aqui a &#8220;\u00e1-gua&#8221; \u00e9 linear. A l\u00edngua \u00e9 ritmada como a ba-tu-ca-da. Al\u00e9m disso, as vogais n\u00e3o tem duplo som, tem apenas um . N\u00e3o tem &#8220;a&#8221; que pode soa \u00e0s vezes &#8220;a&#8221; quanto outras vezes &#8220;ei&#8221; dependendo da palavra. \u00c9 s\u00f3 &#8220;A&#8221; o tempo todo. Por isso \u00e9 uma escala. Vai do tom maior, a boca escancarada, e pau-la-ti-na-men-te chegar\u00e1 ao tom menor, com a boca fechada&#8230; &#8220;U&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz passeava naquilo enquanto olhava o coringa. Essa associa\u00e7\u00e3o que fizera hoje para seu aluno americano dava o que pensar, precisava percorrer as outras l\u00ednguas, e ver se poderia virar teoria&#8230; ou seria mais uma indu\u00e7\u00e3o de sua mente cheia de fantasia? Ser\u00e1 mesmo que a forma como se fala e at\u00e9 mesmo a pron\u00fancia da l\u00edngua \u00e9 influenciada pelos h\u00e1bitos, cultura, maneira de ser e agir a ponto de se fundir&#8230; <\/p>\n\n\n\n<p> \u79c1\u306e\u304a\u5bb6\u306f ,,,,Sutis desenhos, pron\u00fancia firme, linear, minimalista&#8230;Sim, o Japon\u00eas fala na horizontalidade, olhos e bocas rasgados, e a cada rever\u00eancia no som, a coluna inclina. Basta esse respeito, pois pouco \u00e9 o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p> &#8220;\u00bfqu\u00e9 libro est\u00e1s leyendo?&#8221; <em>\u00bf<\/em>  H\u00e3\u00e3\u00e3??\u00a0 &#8221; <em>\u00bf<\/em> vai falar, parlar o hablar?&#8221; Tanto faz, Espanha \u00e9 um pa\u00eds de tr\u00eas l\u00ednguas lutando cada uma pela sua autonomia, a interroga\u00e7\u00e3o continua invertida e ali se peita tanto de frente quanto por tr\u00e1s. Na disputa, ganha a velocidade maior e se n\u00e3o conseguir pegar o romper das palavras \u00e9 melhor que&#8230; &#8220;Callate la boca!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;L&#8217;origine, La Madre, La Mamma, Il Papa!&#8221; Modernidades n\u00e3o maculam os algarismos romanos nem o italiano! &#8220;\u00c0 Cesar o que \u00e9 de Cesar!&#8221;Falar italiano precisa ser um marujo das emo\u00e7\u00f5es e com todos os  gestos poss\u00edveis conduzir a l\u00edngua \u00e0 um mar aberto que tanto pode estar sereno quanto &#8220;da un attimo si agita e ti sorpassa&#8221; at\u00e9 que explodes de raiva&#8230;o passione. Nada \u00e9 previs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201dSauve qui peut!\u201da chaleira de prata, o reinado, o frescor dos gestos e das palavras invocando l&#8217;amour sedutor na ponta dos l\u00e1bios. O rebuscado fez do verbo uma gram\u00e1tica gourmet. Falar franc\u00eas&#8230; tem que se apreciar o <em>&#8220;tir\u00e9 par les cheveux&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p> &#8220;<strong><em>Aller Anfang ist schwer<\/em><\/strong>&#8221; (<em>todo come\u00e7o \u00e9 dif\u00edcil)<\/em> um mundo para orrdenarr, arrumarrr. S\u00e3o jun\u00e7\u00f5es, disjun\u00e7\u00f5es, realoca\u00e7\u00f5es de letras e palavras alterando a f\u00edsica dos seus sentidos para que os leigos precisem renascer para captarrr ; <\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso serpentes salpicam o deserto, vestidas de negro  \u064a\u064e\u0648\u0652\u0645\u064f \u0627\u0644\u0623\u064e\u062d\u064e\u062f\u0650  as dissimuladas letras \u00e1rabes contorcem-se em vestes rudes, burcas e ondulam as areias brancas do Oriente. <\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passou muito r\u00e1pido e j\u00e1 dentro da esta\u00e7\u00e3o da Carioca a espera do metr\u00f4, Beatriz se apressou em resumir seus pensamentos sobre como atuar para falar bem qualquer cada uma das l\u00ednguas. &#8221; &#8211; Sim, vou deixar para concluir mais tarde&#8230; &#8221; Ou nunca mais pegar, pois que a qualquer momento ela pode apagar &#8230; <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que entre seus p\u00e9s e sua mente muitos pap\u00e9is, atalhos e destinos aparecem e desaparecem&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"359\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/indio-2.jpg?resize=640%2C359&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-2187\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/indio-2.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w, https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/indio-2.jpg?resize=300%2C168&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/indio-2.jpg?resize=768%2C431&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beatriz acabara de sair do luxuoso pr\u00e9dio em Santo Cristo e que, valha-se o nome, erguia-se ali, suntuoso e solit\u00e1rio, em meio aos de escombros de lojas e casas naquele bairro abandonado. 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