{"id":2493,"date":"2020-08-22T14:14:22","date_gmt":"2020-08-22T14:14:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/?p=2493"},"modified":"2026-09-23T21:06:53","modified_gmt":"2026-09-23T21:06:53","slug":"beatriz-atravessa-o-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/2020\/08\/22\/beatriz-atravessa-o-rio\/","title":{"rendered":"Beatriz atravessa o rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Beatriz \u00e9 uma daquelas pessoas que vive como se estivesse atravessando um rio. P\u00e9s descal\u00e7os, sentindo a \u00e1gua gelada e o arrepio que vai do ded\u00e3o do p\u00e9 ao mais longo fio do cabelo que, entre a ingenuidade e a teimosia, ainda a faz envergar gentilmente para apenas molhar os pulsos, dar tempo ao tempo, e se adaptar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando jovem, n\u00e3o tinha a experi\u00eancia necess\u00e1ria para lidar com escolhas. Pensava que atravessar um rio era tarefa f\u00e1cil, bastava seguir o que lhe desse algum prazer, sem firulas, alimentada pela fantasia. N\u00e3o sabia ela que j\u00e1 ali devia ponderar e fazer anal\u00edticas escolhas. Que n\u00e3o se deve fiar logo na primeira pedra que pisa, talvez nem na segunda, podem n\u00e3o estar fixadas no ch\u00e3o de areia ou ter muito limo na superf\u00edcie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fato \u00e9 que Beatriz, n\u00e3o por falta de intelig\u00eancia, mas por pouca orienta\u00e7\u00e3o mesmo, se contentava com o que lhe vinha pela frente e, logo de primeira, mesmo cambaleando, ficava ali naquela pedra tentando se equilibrar por sua habilidade (j\u00e1 mencionada) de se adaptar facilmente&#8230; <em>&#8221; &#8211; \u00c9 s\u00f3 n\u00e3o colocar o peso. Respirar fundo, erguer o pulm\u00e3o de ar como um bal\u00e3o que os ossos parecer\u00e3o mais leves, assim suspensos&#8230; viu? Deu certo, assim n\u00e3o caio! &#8220;<\/em> E assim seguia ela, firmada no suspense, enquanto o tempo passava. Os p\u00e9s podiam at\u00e9 doer de c\u00e3ibras com aquela temperatura da \u00e1gua bloqueando a livre circula\u00e7\u00e3o do que lhe corria nas veias que ela mal olhava e, por isso, nada a conseguia alertar para os riscos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ou outra vez, achando n\u00e3o mais suportar a dor, procurava se aventurar colocando as pontas de um dos p\u00e9s onde via uma parte rasa, um ch\u00e3o, mais \u00e0 frente, mesmo que para isso tivesse que dar uma passada bem larga, talvez at\u00e9 arriscada. A areia parecia t\u00e3o macia naquele terreno s\u00f3lido, de terra firme, normal, diferente do balan\u00e7o daquela pedra em que estava. Alcan\u00e7ava com a pontinha dos p\u00e9s, descansava ali provisoriamente naquele sossego mesmo que ainda tivesse seu corpo na pedra desequilibrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De resto, na maior parte do tempo tirava tamb\u00e9m proveito de uma outra habilidade que se ligava \u00e0 primeira por antecipa\u00e7\u00e3o. A sua inata fantasia provinda do giro temporal de seu c\u00e9rebro que a fazia olhar para aquele pequeno raio de sol prop\u00edcio naquele momento em que estava, mesmo que l\u00e2nguido, t\u00edmido, se esgueirando por uma pequena brecha entre as copas das \u00e1rvores que circundavam o rio e a entorpecia como um anest\u00e9sico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o tempo, implac\u00e1vel, ia lhe cobrando o pre\u00e7o do descaso, fruto dos seus maiores defeitos, ao medo e ao &#8216;demorar&#8217; na fantasia. Na velocidade de um sopro, efetivamente j\u00e1 come\u00e7ava a escurecer. A resga de sol que antes via j\u00e1 sumira de vez. O frio era intenso e o risco de a correnteza subir naquele rio era certeiro. Seu corpo parecia agora mais enfraquecido e, subitamente se lembrou de uma frase que ouviu (ou leu) algures: <em>&#8220;N\u00e3o se demore onde n\u00e3o te sentes feliz&#8221;<\/em> que ela entronizara apenas, mas n\u00e3o serviu de aviso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, j\u00e1 prestes a escurecer, n\u00e3o tinha alternativa, tudo que tinha de fazer era sair dali de qualquer jeito. Sabia que, em fra\u00e7\u00f5es de minutos, o leito do rio encheria e n\u00e3o haveria como escapar, nem se soubesse nadar. E Beatriz n\u00e3o sabia, ningu\u00e9m lhe ensinou. \u00c9 verdade que n\u00e3o morreria s\u00fabito, j\u00e1 que, leve como era, tentaria se safar de algum jeito, catando cavaco ou se agarrando \u00e0s pedras no caminho, mesmo que depois lhe trouxesse o peso de aranh\u00f5es e de muita areia nos cal\u00e7\u00f5es. Pronta para pular, eis que surge na pedra vizinha uma r\u00e3 verdinha talvez naquele mesmo impasse&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#x1f6d1; <strong>Conte\u00fado exclusivo para assinantes<\/strong><br>Este post est\u00e1 dispon\u00edvel na \u00edntegra apenas para membros cadastrados.<br>&#x1f517; <strong>Clique aqui para fazer login<\/strong> ou criar sua conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/blog\/\">Ver mais posts<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beatriz \u00e9 uma daquelas pessoas que vive como se estivesse atravessando um rio. 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