{"id":4053,"date":"2025-08-10T15:46:42","date_gmt":"2025-08-10T15:46:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/?p=4053"},"modified":"2025-08-12T14:50:07","modified_gmt":"2025-08-12T14:50:07","slug":"a-infante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/2025\/08\/10\/a-infante\/","title":{"rendered":"A Infante"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando crian\u00e7a, l\u00e1 pelos anos 70, com seis e at\u00e9 os quatorze anos, Beatriz tinha um interesse curioso de observar as pessoas. N\u00e3o s\u00f3 como elas eram atrav\u00e9s dos tra\u00e7os, gestos e trejeitos, mas tamb\u00e9m o que pensavam, sentiam, enfim, aquilo que tinham por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por ter nascido numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, numa escala m\u00e9dia de conforto, nada extravagante, nem desconcertante, Beatriz parecia viver na linha do meio, por isso conseguia enxergar pelos dois lados da moeda o que a fazia estender os pensamentos com limites mais amplos.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia sempre morou em apartamento, na zona Norte do Rio, a zona entre o luxo e a pobreza. Quando Beatriz contava onze anos, o pai comprou uma casa de veraneio numa praia afastada, local que passou a ser destino dela e dos irm\u00e3os para todas as pausas escolares, fossem elas de ver\u00e3o ou de inverno, incluindo f\u00e9rias, fins de semana e feriados. Descendente de portugu\u00eas como era, o pai fizera as contas no l\u00e1pis, que segredava em seu ouvido, que ali estava um bom investimento, afinal manter quatro adolescentes afastados dos atrativos da cidade grande, tudo somado, sairia bem mais barato.<\/p>\n\n\n\n<p>A praia era pouco conhecida, como disse antes, afastada. Havia apenas o mar, o principal atrativo, areia e muito mato por todo lado. Quase sempre deserta, exceto aos fins de semana quando aparecia um gato pingado perdido no areal. Na orla, havia poucas casas, esparsas, com muitos terrenos baldios entre elas.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico \u00f4nibus passava uma vez pela manh\u00e3, outra ap\u00f3s o almo\u00e7o e o \u00faltimo \u00e0 tardinha, apelidado por Beatriz de <em>geleca<\/em>, talvez por ser verde e escorregadio, se sacudindo todo na estrada at\u00e9 se enjoar. Durante muitos anos, era atrav\u00e9s do geleca que chegavam na casa de praia, carregados de sacolas e mochilas. O percurso era cheio de baldea\u00e7\u00e3o. Pegava-se o \u00f4nibus da Tijuca para a esta\u00e7\u00e3o da Leopoldina e ali se esperava o outro que atravessaria a ponte Rio-Niter\u00f3i (ou, algumas vezes, at\u00e9 a Pra\u00e7a XV para pegar a barca) e chegando no centro de Niter\u00f3i corriam para alcan\u00e7ar o geleca no ponto final.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 caminho da praia, o geleca subia por uma estrada estreita com um desfiladeiro \u00e0 esquerda e, por esta raz\u00e3o, Beatriz, assim que entrava nele procurava se sentar no banco deste lado, o do desfiladeiro,  para ficar na janela olhando o cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A curiosidade de uma crian\u00e7a nada tem que n\u00e3o seja inocente, bem distante de qualquer outro motivo. Beatriz, com ar meio hipnotizado, olhava os casebres apinhados uns sobre os outros no desfiladeiro, em meio \u00e0 mata selvagem. Uma ou outra crian\u00e7a brincava ali por perto, no ch\u00e3o de terra, sozinha, se entretendo com o nada e com ningu\u00e9m para brincar. Poucas e fracas luzes se viam dentro daqueles casebres deixando uma sensa\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica \u00e0 medida que a viagem ia se prolongando pelo fim da tarde e o c\u00e9u ia mudando do cobalto, ao chumbo at\u00e9 o marinho. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo indo de primeira, o geleca quase n\u00e3o conseguia ultrapassar os vinte quil\u00f4metros por hora naquela subida. Era uma viagem longa, exaustiva para seus pais, n\u00e3o sei para seus irm\u00e3os, mas, para Beatriz, a imagina\u00e7\u00e3o a mantinha al\u00e9m do tempo e do cansa\u00e7o. Ela se entorpecia, parecendo estar ali vivendo mais perto do cen\u00e1rio que via do que o \u00f4nibus lhe permitia, enquanto imaginava: <em>&#8221; &#8211; como seria viver ali&#8230;.<\/em>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, se desenvolveu o gosto de Beatriz por observar pessoas, realidades, gestos, gostos, olhares, mais tarde, perceber suas falas, at\u00e9 arriscar na &#8216;arte&#8217; de ler pensamentos. Hoje, provavelmente julgaria isto ousado e totalmente inconsequente. \u00c9 que, por ter se tornado um h\u00e1bito, uma esp\u00e9cie de cacoete, passou despercebido por seus pais que a deveriam ter melhor orientado \u00e0 respeito ou, at\u00e9 mesmo, a repreendido em tempo. Fato \u00e9 que hoje, j\u00e1 adulta, Beatriz pensa que possa ter sido a causa de alguns insucessos em sua vida nas quest\u00f5es de relacionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que vem ao caso, aqui, na verdade, \u00e9 a infante que d\u00e1 nome ao t\u00edtulo. Enquanto as pessoas andarilhavam ao seu redor, l\u00e1 estava ela observando, certo que, despretensiosamente. \u00c9 o olhar de uma crian\u00e7a curiosa. Afinal, que mal tem em notar que as m\u00e3os em concha durante um abra\u00e7o s\u00e3o diferentes daquelas estendidas nos ombros denotando, as primeiras, mais sentimento e aconchego? Assim como a express\u00e3o distante no rosto enquanto os olhos quase tocavam um sorriso&#8230; \u00e9 que tudo lhe parecia ter um e outro significado.<\/p>\n\n\n\n<p>As fotos tamb\u00e9m n\u00e3o lhe escapavam. As antigas, por exemplo, do bisav\u00f4 sentado na cadeira ao centro, tendo a esposa de p\u00e9 com a m\u00e3o pousada no ombro do marido, e as crian\u00e7as ao redor deles quase sempre com as caras fechadas, sisudas, meio tristes. As fotos s\u00e3o mais que retratos de pessoas, s\u00e3o tamb\u00e9m relatos de uma \u00e9poca. Claro que para Beatriz, ainda t\u00e3o crian\u00e7a, n\u00e3o tinham peso, apenas conversavam com ela seus sentimentos e ela lhes retribu\u00eda com a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz, afinal, \u00e9 s\u00f3 um exemplo de como pode se iniciar a hist\u00f3ria de uma menina, que apesar de parecer invulgar, talvez seja apenas mais uma crian\u00e7a entre tantas com o estranho dom de enxergar o que n\u00f3s, adultos, perdemos a habilidade de ver, por n\u00e3o saber mais como usar.<\/p>\n\n\n\n<p>O dom que nos faz perguntar, sempre que estamos diante de uma pessoa ou cen\u00e1rio, mesmo que distante e diferente:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;- como \u00e9 viver neste lugar..? .&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Kawer<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando crian\u00e7a, l\u00e1 pelos anos 70, com seis e at\u00e9 os quatorze anos, Beatriz tinha um interesse curioso de observar as pessoas. N\u00e3o s\u00f3 como elas eram atrav\u00e9s dos tra\u00e7os, gestos e trejeitos, mas tamb\u00e9m o que pensavam, sentiam, enfim,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5660,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":true,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[102],"class_list":["post-4053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humano-como-recurso","tag-cronica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/A-Infante-2.jpg?fit=414%2C640&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p73n8l-13n","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4053"}],"version-history":[{"count":59,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5708,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4053\/revisions\/5708"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5660"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kwpessoaseotrabalho.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}