Vem que eu mato no peito e começo a brincar, quico-a de contra o joelho, envergo, ajeito no pé e… Não, não tenho intenção de fazer um gol. A distância parece ainda muito grande e a miopia também me atrapalha.
O coração até que bate igual o de um jogador, quente, pulsante, com ardor, paixão, entusiamo, mas… logo se arrefece. É que a liberdade que tenho de ficar à vontade para escrever e fazer isso à hora que bem entendo é boa, mas sem platéia, sem um propósito definido, sem um ‘G’ de ganância, de público, de fazer um gol… faz com que eu acabe ficando aqui meio sozinha. Faço a coisa toda do meu jeito, vou escrevendo, sem saber ao certo se o jeito é jeitoso ou se esse jeito dará algum jeito nesse meu futuro incerto e desajeitado.
Espere aí, mas também não é assim. Tenho lenços e documentos. Trabalhei muito, fui boa parte do meu tempo útil, imigrante, tenho experiência no exterior, lá me especializei em trabalhos modestos. Fui balconista, garçonete, caixa em discoteca, vitrinista, promotora em mercado, em quiosque, conquistei por fim uma gerência, fiz uma filha! Faculdade? sim, um pouco tarde, só quando voltei trazendo toda essa bagagem, quarentona, já menopauseando. Fiz também uma pós há pouco, aos sessenta, e traduzi seis romances enquanto estávamos trancados em casa na epidemia. Não ganhei nada com elas, as formações, eu seu… Então, dei aulas particulares, fui ‘bolando’ projetos, mas faltaram recursos e estes morreram antes de mim. Agora,, fiquei como Pandora, com a sobra, onde afinal encontrei esperança, na criatividade…
É que Deus escreve certo por linhas tortas, já dizia… acho que Deus…
Então, diante disso, fiz aqui meu portfólio regado há onze anos como se rega a um cacto…
mas que, agora, será tratado como a um Lírio-da-Paz para que eu me comprometa a enchê-lo de água!.
alguém que assume e se auto-intitula, agora e sempre,
escritora…
sem a menor vergonha.
Kawer