“Estou a trabalhar, a produzir é que não sei…”

” – Meu irmão faz alguma coisa! Parece que não sabe trabalhar!” brinca um dos funcionários de um supermercado porte médio de um bairro movimentado do Rio de Janeiro com outro funcionário que inerte, responde de imediato  – “Tô trabalhando sim! Já bati meu ponto… só não estou produzindo.”

A conversa descontraída entre os dois colegas à minha frente ou de qualquer outro cliente que estivesse por perto parecia despreocupada, sem constrangimentos, como se não passasse de um habitual cenário, o que realmente é.

Descolados, malandrados, às vezes desbochados, frutos da cultura consolidada, moldada à medida das chances que se lhes dá, que são quase nenhuma, o jeito é gingá pra cá, gingá pra lá, é o jogo de cintura que não dá mais para retirar, tá oxidado. Fruto de uma malandragem simpática, charmosa, esse é o máximo que conseguem dar comparado ao pouco que se lhes dá. Trabalho análogo ao escravo, árduo, pouca paga, transporte pesado, moradia precária.A indolência é a ab-reação que a psicanálise aconselha para não neurotizar.

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