Não há nada de errado em conversar com você mesmo, até mesmo em voz alta…
Fiz isso a vida toda. Vida que ainda corre junto a esse relógio de pulso que só tiro para dormir. As duas perninhas finas como agulha, desproporcionais em comprimento, caminham cada vez mais rápido. Fico só aqui monitorando, de vez em quando, pelo visor, principalmente a mais comprida, que é danada de rápida e quase sempre me assusta.
Acho que deve ser triste quem só usa celular ou aquele relógio de números grandes, o digital, para ver as horas. Perde com certeza o controle dos batimentos harmônicos, naturais, da vida real caminhando com suas próprias pernas sobre as veias do seu pulso.
Assim como também é real essa coisa de conversar consigo mesma. Quando pequena, ou melhor, até jovem… tá bom, adulta, porque não confessar (?), dava grande vazão à essa coisa de conversar sozinha às vezes. Chegava até a me colocar no cenário propício, fictício. Era uma transmissão direta do canal aberto para a imaginação que mesclava conversa reflexiva com realização de desejos.
Mas, aos poucos, essas conversas foram perdendo intensidade emocional, assim como frequência. Não sei quem vem na frente como causa ou consequência, mas fato é que elas foram ficando desenxabidas e, hoje, são mais raras. Já encontro dificuldade em endereçar a palavra ou imaginar cenários impossíveis a se realizarem para mim mesma.
Há outras boas razões para essas conversas rarearem também. Uma é a preocupação para que ela não se tornasse um hábito e que, na idade adulta e sênior, pudesse vir a ser atribuída à loucura ou um princípio de demência. Outra, porque com o tempo vamos nos desprendendo naturalmente de certas coisas. Vamos resolvendo tudo assim, sem muita conversa, reflexão, nos norteando mais pela experiência, usando mais a lembrança do que criando novas celeumas.
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