Nascemos com a incumbência de nos alimentar, manter nossos corpos firmes enquanto atravessamos o tempo que nos é destinado viver, pois é causa quase obrigatória, moral e até religiosa, não abreviá-la. O alimento é, por isso mesmo, essência vital para todos nós. Mas nossa relação com o que ingerimos vai muito além de um simples ato de sobrevivência. Ela dita extraordinárias nuances de domínio de nós mesmos e do que desejamos para nós.
A comida que preparamos dita parte da nossa personalidade, não só a individual, mas também aquela coletiva. Definirá o meio em que vivemos, nossa cultura, nosso estado de saúde, nossa longevidade, espiritualidade, inteligência, entre tantas outras coisas. É na escolha do alimento diário, nos rituais desde a colheita à compra no mercado, passando, principalmente, ao modo de preparo, como ele é exposto e servido, como as pessoas se sentam e se posicionam em torno dele, como o degustam e até os tallheres que usam que irá determinar muito de nós e de nossa vida, além do destino.
Sendo assim, o alimento carrega históricos de pessoas, suas experiências vividas, lembranças afetivas que ficaram nas receitas passadas de pais para filhos, por gerações, por vezes, inventadas com os poucos ingredientes que havia, por necessidade, outras, por prazer, algumas se tornando lendárias, outras, provocaram risadas em família. As que não ficaram registradas, foram simplesmente esquecidas ou totalmente rejeitadas, algumas ficaram enterradas com os povos dizimados em guerras e extermínios, ou, ainda, vieram para substituir e trazer modernidade, novos enredos, ideias, num movimento contínuo, dinâmico, passando ou ficando, não importa quanto, mas que de algum modo, em algum momento deixaram na cozinha um talher cultural de herança.
É de suma importância levar à todos aqueles que trabalham nesse circuito dinâmico e historicamente rico e vasto a consciência da sua importância, da missão que ela contém. Do fator transformador que este segmento de nossas vidas traz e como ele influencia fortemente a história e a humanidade.
E quando disserem à você que carrega uma bandeja, ou prepara um prato, mesmo que seja na mais singela birosca da esquina, ou em algum outro local aparentemente decadente ou insípido… rejeitem conscientemente a depreciação. Internalize, com todas as provas que a história confirma, que você tem, em verdade, em mãos, uma ferramenta poderosa e transformadora da sociedade.
Kawer
