Há tanta ferrugem nessa massa que descobrir, após meio ano de vida, que se perdeu tempo, é triste, mas acontece. Poucos são os que atinam que pegaram um bonde errado, ou que pegaram o certo, mas com um chapéu alheio, e outros tantos partem sem sequer terem vindo. Portanto, o atraso, na pior das hipóteses, é o de menos para quem já chegou depois da metade da vida sem saber para o que veio ou se arrepende do que não foi feito.
Revirar o jogo e a ampulheta do tempo é impossível, mas vale aprender a brincar com as ferramentas que, de certo, conquistou. Alguma você haverá de ter. Em um jogo meio escondido, meio solitário, você, com algumas peças na mão, aquelas que te sobraram no tabuleiro da vida, pode, finalmente, com alguma liberdade, longe dos olhares, inventar um jogo só seu.
Eu sei, essa reviravolta tinha que ser antes, mas isso se não tivéssemos uma educação banal, um emprego formal, e tal, e se não crescêssemos só junto com gente, atropelando o processo criativo e nos fazendo perder inclusive boa parte do nosso tempo.
Quando chegamos no topo da vida em que estamos totalmente afiados, sangue borbulhante, atrevido, circulação frenética passando por todos os nossos ossos erguidos, mais eretos do que nunca, tudo se movendo, tudo acompanhando, tudo aprendendo, tudo fazendo, tudo ao seu dispor, muito para compor… vem as regras, o dever social e o banimento de qualquer contestação, já que a juventude tem o que os recalcados embarreiram … a possibilidade de mudar.
E aí o tempo passa sem darmos conta e passamos a jogar um jogo inventado por outros, e que se joga até hoje, e que não tem a menor graça. Porque não era para ser assim. Teria que nos bastar ouvir a regras da nossa essência, da nossa natureza, aquela que tudo nos dá, mas que se entristece nos vendo seguir caminhos entorpecidos pelo bando, inconscientes, manipulados. Esse tabuleiro é velho, só troca a roupagem. Inventam umas tecnologias, umas cores vibrantes, um Tiktok aqui, um PIX ali, mas o tabuleiro é o mesmo de sempre. E o que é pior, já mostrou, há muito, que não funciona, não faz ganhadores. Com muitas ou poucas peças não há ganhadores. E se perguntarem porque estão jogando este jogo até hoje, dirão… “- Ora, e tem algo diferente? ”
Mas, quando chegamos na meia idade, não é tão incomum aos 40, 50, 60 ou 70 anos entrar numa faculdade, publicar algo inédito ou simplesmente reinventar um novo estilo, mudar esquemas, perceber um rasgo, mesmo que tardio, de liberdade. É porque os olhos já não estão se virando para nós, vamos ficando despercebidos, vão afastando o tabuleiro, vamos sendo conduzidos para a beirada… já prestes a cair. Nessa hora essa nuance de liberdade vai aparecendo, uma coisa nova. O corpo físico acompanha a mudança repondo na falta de lucidez uma sensação, finalmente, diferente para compensar.
Quando não tão destruídos por traumas, guerras inúteis, a mente se recompõe pensando na vida e o que dela fez, lembrando mais do que nunca do passado, da infância… porque foi nela que se perdeu. E aí vem a pergunta:
“ – Mas quem é você? ”
“- eu era uma criança, mas ainda não sei quem eu era”
Não há culpa. Todos passam, passaram e passarão pelo mesmo processo, pois caminhamos num mesmo jogo de manipulação. Podemos ter variadas culturas, histórias, as peças mudam os formatos, mas difícil é sair desse tabuleiro. É igual. E salvo aqueles que se jogaram em tempo para fora e se mantiveram ilesos, sem serem corrompidos, teria sido essa a vida que todos nós teríamos vivido. A vida única de uma essência e propósito que morremos desconhecendo (salvo raríssimas exceções) e que nos distinguem.
Kawer