Estava para fazer isso há tempo. Só depois de algum tempo tomei vergonha, me agarrei ao propósito, e cobrei de mim a concretização do plano: TER UM CADERNO SEMPRE À MÃO. E disse para mim mesma: “Esta semana vou comprar o bendito!” É que entre uma caminhada pelas ruas, entre uma página de livro lida no metrô, entre uma olhada em torno, entre uma pessoa e uma paisagem, enquanto sentava, lia, olhava e respirava, nesse vai e vem dos olhos, no caminho para algum lugar me vinha algo para eu explorar no futuro, uma inspiração e queria escrever, mas… NÃO TINHA ONDE!
E o arrependimento de não ter um papel, um caderninho, onde pudesse guardar o que vinha em mente era sempre um problema. O pior é que essas inspirações são únicas! Surgem como faíscas! E, acredite, elas vêm quase sempre com o texto todo pronto para nos desafiar, pois se não são guardadas naquele exato momento, fogem para nunca mais voltar, perdidas no laboratório dinâmico das redes neurais. Um verdadeiro labirinto. Passados alguns minutos, ruas, pessoas, entrando e saindo daqui para ali, quando se chega em casa, se ainda lembrar de alguma coisa do que veio em mente antes, depois, parece sem menor sentido, algo desenxabido… talvez porque servisse como presente apenas para aquele instante.
Aí então me perguntarão, curiosos e sem paciência, como somos todos, com tolices, por que raios não o fiz isso antes, se era de fato importante? Qual a dificuldade de comprar esse caderno afinal? Poderia me envaidecer com o capricho da minha personalidade e argumentar que não encontrava um com a qualidade e a beleza que eu desejava, a capa apropriada… como também posso dizer que, apesar de pequeno, seria um gasto desnecessário para aquele momento, afinal, umas folhas de A4 colocadas na mochila poderiam também resolver o problema, mas seria um engano, puro engano. Folhas não são coesas, não se entrelaçam por uma tira exercendo o mesmo domínio, ocupando uma mesma matéria.
Só posso explicar, então, usando um pouco de psicologia, já que eu não tenho uma resposta exata. Mas fato é que, mesmo estando já decidida a comprar, a escolha, que parece simples, para mim não é. Não sei se isso acontece com mais alguém, mas é que qualquer compra que eu faça, seja de uma fruta, de uma roupa ou de um objeto, no fim… a ‘coisa’ é que tem que me escolher, principalmente quando se trata de algo assim tão importante, afetivo, como este caderno que servirá para reunir pensamentos, inspirações, o meu espaço lúdico, reservado à minha atividade predileta, escrever.
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