Que Saquinho…

O que Freud diria sobre o episódio de hoje que aconteceu comigo? Como ele classificaria a situação, que logo à frente ficará explícito?… ‘ato falho’, ‘sugestionamento’, ‘sina’ pessoal ou uma simples ‘coincidência’? Antes de dar a resposta, vou relatar o fato…

Acordei bem disposta como sempre, com o roteiro da manhã mais ou menos certo do que iria fazer antes de voltar às minhas outras atividades. Precisava passar em um hospital logo bem cedo para pegar uma documentação e de lá ainda passaria em outros poucos lugares.

Cheguei no hospital, como disse, bem cedo, peguei a documentação, coloquei num saquinho transparente e guardei dentro da bolsa (que era pequena, mas coube, detalhe importante que logo saberão porque). Saí, tirei o celular da bolsa para chamar o Uber e fiquei aguardando, sentada numa mureta, na frente do hospital, para ir ao meu próximo destino.

Após sair do segundo local, atravessei a rua, uma senhora esbarrou em mim, mas pediu desculpas e, já do outro lado da calçada, entrei em uma loja de sapatos, de curiosidade, não comprei nada e fui para a farmácia, que neste caso passou a ser o quarto local.

Ainda antes de chegar em casa, parei para tomar um mate, pois estava muito calor e eu estava suando adoidado. Já bem próximo de casa, ajudei uma senhora a atravessar uma rua que achei perigosa e quando olhei no relógio, agradeci: “como é bom acordar cedo, são 11h e ainda vai me sobrar tempo para dar uma corrida e almoçar com a mamãe antes dos outros compromissos”.

E finalmente cheguei no nosso prédio. Passei pelo porteiro que brincou comigo, pois eu estava pingando de suor e quando abri a porta da cozinha, fui direto ao quarto da mamãe para cumprimentá-la, pois quando saí ela ainda estava dormindo. Falei com a cuidadora e me dirigi ao meu quarto para pegar o roupão e tomar um banho. Mas quando abri a bolsa para tirar o celular… “O SAQUINHO NÃO ESTAVA LÁ!!!” Vale aqui informar que a tal documentação que busquei tinha que ser original e servirira para dar andamento a um tratamento agendado para dali a poucos dias, logo, não havia tempo para providenciar uma segunda via.

Em resumo e para meu desespero, eu tinha que encontrar o saquinho!

” – Zeti, a documentação que eu trouxe do hospital não está na bolsa! E eu só me lembro de a ter guardado na bolsa, mais nada…”

” – Ué, mas você, quando entrou no quarto, me pareceu que tinha algo na mão…”

” – Não é possível, onde eu poderia ter posto, se estivesse na mão…eu vim direto para o quarto…

Bom, pensei, não há tempo à perder vou percorrer todos os lugares que fui, a começar pelos mais próximos, mas antes disso já enviei uma mensagem para o motorista do Uber que disse não ter visto nada no carro.

Chegando no segundo local…

” Bom dia senhor, por acaso deixei um saquinho com uns papéis aqui no balcão?” (único espaço que ocupei)

” Não deixou não senhora, mas eu lembro que a senhora colocou um saquinho no balcão, pegou e saiu com ele…”

– Muito obrigada, já foi uma boa dica!” e saí de lá já sabendo que a perda só poderia ter sido após isso.

Na sapataria, a pergunta foi quase a mesma para a atendente que me abordou quando entrei:

“Por acaso você reparou se eu eu estava carregando um saquinho na mão?”

“- Sim, eu vi sim, a senhora entrou com ele e saiu com ele”

O relato foi idem, na farmácia…

Bom, agora só restou a Casa do Mate, o último local, que fica numa galeria com mesinhas e eu havia ocupado uma delas. Fui perguntando em todas as dez lojinhas da galeria, que por sorte era pequena, saber se alguém teria lá entregue, ninguém viu, mas me ajudaram a procurar até nas lixeiras. Bendito Brasil!

Voltei para casa, tonta, sem saber o que poderia ter acontecido, cheguei a pensar na mulher que esbarrou em mim ser uma ‘pickpocket‘ que poderia ter roubado o saquinho achando que teria algo de valor nele… Enfim, não conseguia entender o que estava se passando e menos ainda quando voltei para casa e perguntei ao porteiro, o mesmo de antes:

” – Por acaso quando entrei antes eu estava com um saquinho na mão?”

” – Vi sim, você tinha sim, alguma coisa na mão, acho que era um saquinho”

” – Mas não é POSSÍVEL!!! “– pensei… Não há lógica nisso! Que loucura!! Bem, não tem jeito, vou pegar outro Uber e implorar por uma cópia lá no hospital, fazer o quê?!!

E lá consegui a cópia dos documentos depois que expliquei à recepcionista que não sabia, mas eles haviam sumido depois que fui à alguns lugares assim que saí dali. Ela foi gentil, mas me reforçou que possivelmente não iriam aceitar, pois teria que ser a original.

Saí triste de lá e, dessa vez, resolvi esperar o Uber do lado de dentro na entrada do hospital. Isso porque havia um morador de rua, bastante exaltado na calçada, falando alto, sem juntar lé com cré, xingando todos que passavam e eu achei melhor ficar ali junto aos seguranças.

Aguardei um bom tempo, pois o primeiro motorista do Uber que pegou a corrida cancelou, o segundo também e o terceiro idem e… nessa espera, de repente, não sei o que me deu, pois já estava resignada, olhei para os dois seguranças, um em pé, monitorando o mendigo, o outro sentado próximo à mim e…

” – Por acaso, vocês encontraram um saquinho com…” e ele nem me deixou acabar

” – …documentos?” trocaram olhares os dois e o da cadeira falou para o outro ” – Olha é a dona que esqueceu os documentos…” e o outro respondeu… ” Ah, é a senhora?! Tá aqui com a gente!! A senhora esqueceu ali na frente”

Agora, sem mais conversa, eu pergunto…

” – Como que, por unanimidade, toda essa gente me viu com o saquinho na mão?!”

Quando pessoas relatam ter visto algo que, de fato, não viram, Sigmund Freud classificaria esse fenômeno, de forma geral, como um Ato Falho (ou parapraxia) da memória, especificamente ligado ao que ele chamou de Falso Reconhecimento (fausse reconnaissance), relacionado também ao déjà-vu.

Déja-Vu…

e um saquinho…

Kawer

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