Geração Gentileza

 Teremos uma comemoração na próxima terça-feira. Em meio à uma onda de desqualificados adjetivos em que somos obrigados a ouvir (e até proferir) em nosso dia a dia, nesta cidade assaltada à sorte, a GENTILEZA será comemorada. Seguirá da Lapa num cortejo colorido de intelectuais, artistas, parentes e adeptos do poeta, profeta, louco ou, simplesmente, Gentileza, cujo nome verdadeiro era José Datrino. A comemoração será na data de seu aniversário de falecimento, vinte e nove de maio de mil novecentos e noventa e seis, aos 79 anos.

Eu o vi umas dezenas de vezes, ainda garota, aqui ou ali, rondando sozinho, descalço, túnica e barba impecavelmente brancas como as palmas (flores) que segurava em uma das mãos enquanto na outra erguia um estandarte. Uma figura que eu e outras pessoas certamente olhavam num misto de curiosidade divertida. ” Olha lá o Gentileza”, pois já era um personagem da cidade do Rio, conhecido até por turistas. mas, assim como eu, a grande maioria só olhava e seguia, sem se aproximar.

Como Gentileza vivia, como comia ou conseguia manter sua túnica branca aparentemente sempre limpa… nunca me perguntei. Acho que porque eu era muito jovem e nada parecia impossível. Na década de 80, o ouro já era pouco, a moda era só prata e estávamos finalmente saindo de uma ditadura, o clima era festivo. Enquanto isso, por ali, circulava o nosso único profeta de relevante registro. Soube que ele teve família e com 5 filhos, além de uma pequena empresa de transportes de cargas. Após o trágico acidente do Gran Circus, em Niterói, (considerado o mais trágico ocorrido em um espetáculo na história mundial) aquilo o impressionou tanto que serviu de gatilho psicológico e espiiritual a ponto de ele abandonar sua vida mundana aos quarenta e quatro anos.

Essas eram as suas pegadas, em cores e linhas precisas, provando, apesar da aparente loucura, uma retidão e um persistente foco em sua missão. Foi depois considerado um pioneiro da arte urbana. Por sorte, não existiam os recursos de mídia que poderiam calcular os lucros em torno de sua figura, torná-lo famoso, importando-o para uma cena política ou para o mundo do marketing. Deixámos-o em paz, seguindo sua vida como queria…enquanto vivo.

Um século após seu nascimento (1917-1996) é considerado agora um ícone popular, um artista e um poeta, suas pinturas e frases, além de sua emblemática imagem é um marco cultural do Rio. Foi tema de tese de mestrado para o arquiteto Leonardo Guelman e um de seus netos pretende criar um instituto que levará seu legado e nome: “Gentileza”. Provavelmente  sua história, real ou fictícia já deve estar ocupando a mente de algum roteirista para a criação de um filme. Suas frases já foram patenteadas e estampadas em todos os objetos possíveis de se comercializar desde sandálias havaianas e toalhas ou o que mais couber na mente do homem e, então me pergunto se não mais o deixamos caminhar em paz… mas, afinal, quais os resultados por ele desejados de amor e gentileza repercutiram em nossos corações? Até onde sua missão não precisou vir protegida pela loucura para não frustrar seus objetivos, quando, por fim, apenas a sua família se seria finalmente compensada pela sua ausência?

Em meio à eterna desconfiança de ser o bem desmedido também uma loucura, onde foi parar o sentido de sua obra que na verdade não era para ser erguida, nem “culturalizada”, mas germinada como uma semente germina as palmas que simbolicamente ele segurava em suas mãos  e em nossos corações? A ação de um só indivíduo, seja por loucura ou penetrado pela mais alta luz divina terá como sempre uma névoa nebulosa que embaça a visão humana e teimosamente  nos impede de dar um sentido maior para a vida. Nisso ele conseguiu nos ultrapassar e um dia entenderemos o porquê. Louco, artista ou profeta, as asas da liberdade sempre são revestidas do que não é decifrável aos olhos de quem não consegue enxergar.

Próximos de uma data santa, a Páscoa, preferi então não falar dos ovos de chocolate, nem dos seus exorbitantes preços, mas dar ao Gentileza essa singela homenagem, estendendo mais um espaço no concreto para as suas mensagens cujo ofício era de disseminar o amor. Então…

 ” – Valeu, Gentileza! Foi um privilégio ter te visto da janela do carro nas esquinas da vida. Demorou entender o significado, desculpa a ignorância, prometo que não comprarei nada que esteja nas prateleiras manchando suas intenções, bem distantes do “capetalismo”e das injustiças sociais que você repelia do seu jeito. Guardarei na memória o seu segredo revelado na simplicidade dos muros e viadutos espalhados pelas ruas para que nunca a percamos de vista”.

Escolhi frases, por Gentileza...

“Onde houver gentileza, haverá sempre um gesto que surpreenda. Amor se esconde nas coisas pequenas. E a amizade, nas atitudes que refletem maiores que a presença”

“Nenhum gesto de gentileza, por menor que seja, é perdido!”

“Nunca ofendas verbalmente o teu inimigo. Dói muito mais uma gentileza vociferada do que uma ofensa impensada”

“A verdadeira gentileza é perfeito conforto e liberdade. Ela simplesmente consiste em tratar os outros exatamente como você adoraria ser tratado.”

“Não tente procurar um inimigo, muitas vezes você é o seu próprio inimigo.”

“Não usem problemas; não usem pobreza; usem amor e gentileza.”

“Três coisas agradam a todo o mundo: gentileza, frugalidade e humildade. Porque os gentis podem ser corajosos, os frugais podem ser liberais e os humildes podem ser condutores de homens”

“Cobrou é traidor – o padre está esmolando, o pastor tá pastando e o Papa tá papando, papão do capeta capital.”
“Sou maluco para te amar e louco para te salvar!”

Kawer

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