Beatriz acabara de sair de um luxuoso prédio de escritórios da Zona Portuária do Rio onde acabara de dar uma aula particular. Todo espelhado, super moderno, o ‘espigão’ parecia se valer da proteção em reverência ao bairro onde se situava, Santo Cristo! É que ele se erguia, ali, suntuoso e solitário, em contraste mais do que absoluto, quase escandaloso, com relação às construções em torno: singelas casas e lojas do tempo do ‘João charuto’, sendo a maioria delas depreciadas, já quase em ruínas. As ruas, também, praticamente desertas mesmo com o relógio apontando meio-dia. As velhas discrepâncias de um país social e históricamente ‘desconexo’.
Era sua primeira aula para aquele aluno e, depois que saltou do VLT em frente ao prédio, percebeu que não tinha trilhos para o veículo voltar e, logo confirmou com a recepcionista: ” – Não, O VLT não passa aqui na volta para o Centro. ele só passa lá na estação da Providência. Lá do outro lado, um bocado distante. É melhor a senhora ir por dentro da Cidade do Samba pra chegar lá, é um bocado deserto”. E, sim, esta parecia seria a melhor ‘providência’.
Enquanto tomava a direção sugerida, Beatriz começou a pensar nos nomes daqueles bairros próximos: Santo Cristo, Providência, Livramento… nomes seguramente dados pelos portugueses. Como cnheceu o país, sabia que, lá, quase todos os nomes das freguesias e outras localidades provinham do catolicismo: Purgatório, Senhora do Alívio, Crucifixo e até um tal de Senhor Roubado. ‘Mas..Senhor Roubado teria a ver com isso?’ e lembrou, divertida, da história. Era a de um sujeito chamado Antônio Ferreira que saqueara a igreja local levando entre outros objetos valiosos… as óstias! Um sacrilégio! Decretou-se luto nacional! Pelas ruas os fiéis indignados bradaram: ” – “Roubaram o senhor”! O “Senhor foi roubado!!!” e, assim, lhe ficou o nome batizado.
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