Beatriz atravessa o rio

Beatriz é uma daquelas pessoas que vive como se estivesse atravessando um rio. Pés descalços, sentindo a água gelada e o arrepio que vai do dedão do pé ao mais longo fio do cabelo que, entre a ingenuidade e a teimosia, ainda a faz envergar gentilmente para apenas molhar os pulsos, dar tempo ao tempo, e se adaptar.

Quando jovem, não tinha a experiência necessária para lidar com escolhas. Pensava que atravessar um rio era tarefa fácil, bastava seguir o que lhe desse algum prazer, sem firulas, alimentada pela fantasia. Não sabia ela que já ali devia ponderar e fazer analíticas escolhas. Que não se deve fiar logo na primeira pedra que pisa, talvez nem na segunda, podem não estar fixadas no chão de areia ou ter muito limo na superfície.

Fato é que Beatriz, não por falta de inteligência, mas por pouca orientação mesmo, se contentava com o que lhe vinha pela frente e, logo de primeira, mesmo cambaleando, ficava ali naquela pedra tentando se equilibrar por sua habilidade (já mencionada) de se adaptar facilmente… ” – É só não colocar o peso. Respirar fundo, erguer o pulmão de ar como um balão que os ossos parecerão mais leves, assim suspensos… viu? Deu certo, assim não caio! “ E assim seguia ela, firmada no suspense, enquanto o tempo passava. Os pés podiam até doer de cãibras com aquela temperatura da água bloqueando a livre circulação do que lhe corria nas veias que ela mal olhava e, por isso, nada a conseguia alertar para os riscos.

Uma ou outra vez, achando não mais suportar a dor, procurava se aventurar colocando as pontas de um dos pés onde via uma parte rasa, um chão, mais à frente, mesmo que para isso tivesse que dar uma passada bem larga, talvez até arriscada. A areia parecia tão macia naquele terreno sólido, de terra firme, normal, diferente do balanço daquela pedra em que estava. Alcançava com a pontinha dos pés, descansava ali provisoriamente naquele sossego mesmo que ainda tivesse seu corpo na pedra desequilibrada.

De resto, na maior parte do tempo tirava também proveito de uma outra habilidade que se ligava à primeira por antecipação. A sua inata fantasia provinda do giro temporal de seu cérebro que a fazia olhar para aquele pequeno raio de sol propício naquele momento em que estava, mesmo que lânguido, tímido, se esgueirando por uma pequena brecha entre as copas das árvores que circundavam o rio e a entorpecia como um anestésico.

Mas o tempo, implacável, ia lhe cobrando o preço do descaso, fruto dos seus maiores defeitos, ao medo e ao ‘demorar’ na fantasia. Na velocidade de um sopro, efetivamente já começava a escurecer. A resga de sol que antes via já sumira de vez. O frio era intenso e o risco de a correnteza subir naquele rio era certeiro. Seu corpo parecia agora mais enfraquecido e, subitamente se lembrou de uma frase que ouviu (ou leu) algures: “Não se demore onde não te sentes feliz” que ela entronizara apenas, mas não serviu de aviso.

Agora, já prestes a escurecer, não tinha alternativa, tudo que tinha de fazer era sair dali de qualquer jeito. Sabia que, em frações de minutos, o leito do rio encheria e não haveria como escapar, nem se soubesse nadar. E Beatriz não sabia, ninguém lhe ensinou. É verdade que não morreria súbito, já que, leve como era, tentaria se safar de algum jeito, catando cavaco ou se agarrando às pedras no caminho, mesmo que depois lhe trouxesse o peso de aranhões e de muita areia nos calções. Pronta para pular, eis que surge na pedra vizinha uma rã verdinha talvez naquele mesmo impasse…

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